O começo do que já havia começado a muito tempo

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A muitos anos nossa familia sonhava em sair do Brasil e conhecer outras culturas, não estou dizendo em passar férias em outro países, o negócio era mais sério, a vontade era largar tudo e se mudar de mala e cuia para outro lugar.

Com o aumento da criminalidade e impunidade do Brasil, ligado aos níveis intoleráveis de corrupção e falta de respeito ao próximo em todos os lugares essa vontade virou mais que certeza, parecia que não tínhamos nascido no Brasil, e sim que tínhamos caído de um avião e estávamos tentando de qualquer maneira voltar para nossa terra.

Eu sempre gostei muito do Brasil, mas de maneira alguma sou um nacionalista convicto, acho inclusive uma tremenda bobagem essas pessoas que batem no peito falando “sou brasileiro, quem deixa sua terra para ter subemprego e limpar privada dos outros é muito burro”, mas que terra, mas que subemprego, o mundo é um só, a humanidade é uma só, qualquer emprego é digno,  não esta bom aqui, pega suas coisas e procura algo melhor para você, mesmo que para essa coisa melhor acontecer seja necessário um trabalho nem tão “virtuoso” como o seu no Brasil.

Nossos últimos tempos no Brasil foram de muitos altos e baixos, em 8 anos eu abri algo em torno de 12 empresas, trabalho com desenvolvimento web e já fiz de tudo um pouco, o pensamento sempre foi o mesmo, quero fazer alguma coisa que de certo, me estabilizar financeiramente e ir embora do Brasil, após fracassos de um lado e meio sucesso de outro eu já estava esgotado, eu vinha trabalhando 12, 14 horas sem descanso ou férias a muito tempo, estava quase desistindo do meu sonho de vencer com minha própria empresa para procurar um emprego na minha área, juntar dinheiro por uns anos e ai sim finalmente conseguir ir embora.

Sempre tivemos esse sonho, porem também sempre tivemos os pés no chão, não dava para pegar um filho pequeno e se aventurar sem o mínimo de estrutura, não da por que você não paga nem a passagem aérea de todo mundo direito, quem dirá todas as custas do visto e o que a imigração te pede para poder te deixar entrar no país.

Apesar de sermos decendentes de europeus (como 90% da população brasileira) não temos dupla nacionalidade, o que dificultava ainda mais nossa situação.

Eu já estava cansado, quebrei negócios por todos os motivos, falta de planejamento, falta de grana e também pelo negócio estar no Brasil, quem já teve empresa nas terras tupiniquins sabe do que estou falando, é praticamente impossível você fazer alguma coisa que te de bons lucros, tudo corre contra você, tudo e todos estão preparados para fazer você fracassar, isso não é uma desculpa, isso é um fato.

Após ter saído de uma última empresa que fracassou e nos deixou com uma dívida bem generosa resolvi tentar algo diferente, fora da minha área, junto com dois amigos abrimos um restaurante de comida japonesa em nossa cidade, aproveitamos o gancho que ainda não havia concorrência e encaramos o desafio, tudo começou em uma garagem, atendendo apenas por telefone e com muito trabalho, o restaurante seguiu crescendo por 2 anos e nesse meio tempo acabamos esquecendo um pouco nosso sonho, é aquele negócio, quando você trabalha demais, não tem nem tempo para sonhar.

O restaurante cresceu, vieram os funcionários, o trabalho braçal diminuiu e as coisas ficaram mais tranquilas, entre nossos amigos a convicção era uma só, finalmente vocês conseguiram, agora estão estabilizados e as coisas vão começar a melhorar, mas aí veio um tempo livre maior, e com ele nossos desejos que estavam adormecidos voltaram a bater em nossa porta, surgiu a possibilidade de eu negociar minha parte no restaurante com meus sócios, o dinheiro não era muito mas pelas nossas contas, vendendo carro e tudo que tínhamos talvez desse certo.

Voltamos a pesquisar sobre a possibilidade de ir para outro país, devido a eu ser da área de web e aficcionado em tecnologia meu sonho sempre foi o de morar nos Estados Unidos, mais precisamente na California na região do vale do Silício, mas na primeira consulta já vimos que seria quase impossível, as restrições são enormes, você não pode trabalhar, tem que apresentar milhares de comprovações e praticamente é tratado como um criminoso.

O sonho tinha voltado, a vontade era ir embora, tinha que ser um lugar bom mas não importava muito qual seria, no atual momento do nosso país não estava muito difícil encontrar lugares melhores, pesquisamos países da Europa, da Ásia, da America do Sul e tudo ou era inacessível ou não valia realmente a pena, até que comecei a ver muitas pessoas postando fotos na Australia, pessoas essas que não necessariamente tinham boa situação financeira e que conseguiam ir para lá.

Começamos a pesquisar e fazer orçamentos em agências de intercâmbio, em 100% dos casos a premissa era sempre a mesma, SOL, NOITADAS E MUITAS ONDAS PARA VOCÊ SE ACABAR DE CURTIR, porém nada de suporte para famílias e principalmente soluções para crianças, simplesmente nenhuma agência da suporte a crianças, eles não ganham por isso por que as escolas são públicas e apesar de estrangeiros terem que pagar, o governo não repassa comissão, então não é interessante, o público alvo é sempre o mesmo, jovens, sem filhos e a procura de curtas aventuras, se no meio do pacote vão aprender um novo idioma ou seja lá o que for pouco importa, esse é o público fácil de se trabalhar, família é problema, família tem que morar em residência que não seja compartilhada, jovem pega qualquer imóvel compartilhado e encara numa boa, família tem que alugar o próprio espaço e conseguir isso não é nada fácil, não pode ter restrição no visto e precisa de suporte para várias coisas, em resumo, é muito mais fácil e lucrativo não trabalhar com esse segmento.

Varremos a internet em busca de artigos sobre imigração familiar e tirando alguns cursos de férias para país e filhos estudarem juntos por curtos períodos não encontramos nada, simplesmente nada que nos desse as respostas que precisávamos.

Já estávamos cansados de procurar, quase desistindo, não falamos inglês, então fazer as coisas sozinhos como algumas pessoas fazem é bem mais difícil em nosso caso, não tem como ligar para as escolas direto na Australia, não tem como resolver as coisas desse jeito, isso estava nos deixando extremamente desanimados, achávamos realmente que nosso caso não tinha solução, Brasileiros sem dupla cidadania, ambos com 29 anos e com filho pequeno, sem falar inglês e sem formação superior, realmente era um caso muito difícil.

Depois de semanas e mais semanas de pesquisa, no meio de um desses fóruns sobre brasileiros na Australia encontramos uma sra. respondendo algumas questões sobre o assunto, pegamos o contato dela e mandamos um e-mail contanto nossa situação e nossas condições.

Ela nos respondeu e marcamos uma conversa via Skype, descobrimos que ela era uma agente de imigração e que morava na Australia a mais de 20 anos, a partir dai nossa história começou a mudar, era uma pessoa acostumada a lidar com esses casos, já tinha colocados diversas famílias inteiras dentro da Australia e sabia como fazer isso.

Negociamos todas as possibilidades, fizemos e refizemos diversos orçamentos, não tinha jeito, casal não tão novo, filho pequeno e sem formação superior não dava para pegar um curso de inglês qualquer para um de nós e esperar que a imigração aprovasse  nosso visto, o risco de termos restrição seria enorme, isso inclusive é uma coisa que nenhuma agência nos informou, nesse caso o que acontece é o seguinte, a imigração até libera o visto, porém com uma restrição de que ele não pode ser renovado, depois que acaba o curso, que geralmente é de 6 meses a 1 ano você é obrigado a voltar, ou seja, você gasta uma grana tremenda, vende tudo, aposta tudo em uma nova vida e depois de 1 ano tem que voltar para casa, a coisa teve que ser mais elaborada, a aplicação do visto teve que ser planejada de uma maneira diferente, mas isso eu vou abordar em outro post, por que vai uma bíblia só para explicar isso e esse post já esta ficando longo demais.

Após diversos problemas e noites de aflição cheias de incertezas,  conseguimos nosso visto e embarcamos para a Australia, é a partir daqui que começa nossa aventura que iremos compartilhar com vocês, já estamos a um tempo aqui e já conhecemos diversas coisas, ganhamos uma experiência absurda em todo o processo de imigração, o que poderia dar errado em nosso caso deu, tivemos que trocar passagens mais de uma vez, o que nos custou bem caro, perdemos dinheiro por enviar reais para a Australia da maneira errada o que nos custou mais caro ainda, quase tivemos uns 1000 colapsos nervosos mas no final deu tudo certo, nada nunca foi fácil em nossa vida, mas a única coisa que levamos dela é a experiência que adquirimos em cada processo que vivemos e se formos olhar por esse lado, só de termos chegado aqui já somos as pessoas mais afortunadas do mundo.

 

 

 

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Vitor Sant

Vitor Sant

Eu sou o pai, aquele que colocou essa ideia que fazia parte de mim a tantos anos na cabeça de todo mundo, convenci aos meus que a vida é muito curta para se nascer e morrer no mesmo lugar, que o mundo é muito grande para não o explorarmos mas também pequeno o suficiente para que isso seja possível. Sou um faz tudo que já se aventurou em dezenas de negócios próprios e do outros, quebrei a cara na maioria das vezes mas ganhei uma coisa que ninguém me tira, minhas experiências, alegrias e frustrações que me fizeram ser o que sou. Defeitos eu tenho de monte e minhas qualidades são questionáveis, sou um desenvolvedor web mediano, um designer mediano, um administrador de empresas mediano, um leitor mediano, um estudioso mediado, um marido mediano e um pai mediano, a única coisa em que sou bom mesmo é em ser eu mesmo.

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